O enterro de Tixa

Aos cinco anos de idade conheci ela, a Tixa.  Capturei a danada na varanda recém-encerada de casa. Ela estava com o rabo quebrado, por isso foi mais fácil pegá-la. Em uma caixa de sapatos, providênciei a moradia de Tixa, a minha lagartixa de estimação.  E começou a difícil tarefa de cuidar da pequenina.

Procurei, e muito, insetos voadores para dar de comer a ela, mas Tixa nada comeu durante o dia e a noite que passamos juntas. Mas ela era mesmo bonitinha, branquela que podia se ver os minúsculos orgãos por dentro. Fui dormir feliz, com a tixa comigo, debaixo das cobertas. Era junho, estava frio, e fiquei com medo dela morrer congelada.

Na manhã seguinte uma surpresa. Tixa morreu, mesmo no conforto da minha manta dos ursinhos carinhosos. Fiquei arrasada e provideciei o enterro de minha amiga.

Cavei um buraco no quintal, perto do canteiro de melissas de minha avó, porque eram muito bonitas. Forrei com folhas de café e flores de primavera. Enterrei Tixa em uma despedida triste.  E foi assim que eu descobri a morte.

O cheiro das coisas esquecidas

Costumava ficar sempre no mesmo lugar. Olhando para o nada, esperando o mínimo movimento que fosse. Naquela sala de cacarecos e velharias,livros se apinhavam em montes, dividiam espaço nas caixas. Papeís,há muito amarelados pela ação implacável do tempo, dispultavam um lugar nas prateleiras corroídas pelos cupins. Eu dividia este espaço com eles, eram meus companheiros durante as fastidiosas tardes nubladas, naquela cidade cinza e mofada.Eu fazia parte da paisagem daquele apartamento.
As gotículas de água escorriam pela janela e lá fora as goteiras tocavam uma sinfonia nostálgica. Era noite de sexta. Erivelto entrou como louco porta adentro, correndo pelo corredor alcançou rapidamente a saleta. Abriu a porta com violência. Percorreu com os olhos todo o recinto até pousá-los sob mim. Me pegou em seus braços e saiu em disparada outra vez,me atirou no banco do passageiro e deu a partida. Nada entendi.
Pela janela embaçada do automóvel assisti o prédio se afastar. A rua das laranjeiras ficou para trás. O jardim América ficara distante.
O lugar era quente. As luzes não paravam um segundo. Um globo de espelhos pendurado no teto girava. As pessoas dançavam frenéticas, elétricas, ao ritmo de uma batida que me incomodava. Estava velho demais para aquilo. Esta foi a sábia conclusão à que cheguei. Nas minhas veias ainda corre a voz melosa do unico rei que a música já teve. Presley e suas letras adocicadas ecoam de mim.
Encostado numa caixa de som adormeci. Ninguém me tocou aquela noite.
Despertei com as luzes dos postes que passavam lentas uma atrás da outra. A chuva parou e olhando para o alto vi uma lua alaranjada.Mais dez minutos e eu estava de volta em casa. Quando a porta se abriu o cheiro impregnante da naftalina invadiu o corredor. Era o cheiro das coisas esquecidas, um cheiro que me acostumei a sentir.
Ele me depositou na vitrola. Eu não pude estar mais feliz. Aquele é o melhor lugar em que um ultrapassado vinil pode ficar.

Sinfonia das Cores

Chovia forte ontem à noite quando minha mão começou a coçar para escrever algo. Eu cheguei completamente encharcada da faculdade lá pela meia noite e era para eu estar bufando de raiva. Mas chuva é o tipo de coisa que me deixa bem. Especialmente porque em Ribeirão Preto isto é fenômeno raro e digno de contemplação.
Pela janela do quarto, semi-aberta, sentia o cheiro do asfalto molhado. Cheiro este que faz menção a infância sagrada e tão bem guardada nos recônditos da minha mente. Chuva tem cheiro de amor adolescente, de Sessão da Tarde, de cabana feita com lençol no meio do quarto quando os primos dormem em casa. Têm cheiro de bolinho de chuva, enrolados em açúcar e canela, feitos pela minha avó quando o céu escurece.
Mas especificamente hoje, depois de um dia de cão no trabalho a chuva me fez bem. Era pra eu ter ficado brava. Tive as roupas completamente molhadas, além do meu precioso bloco de anotações e do meu RG, que já era velho e agora se encontra em duas partes. Vários papéis com dezenas de endereços de e-mails, para os quais inclusive eu nunca vou escrever nada, foram detonados pela implacável água que invadiu minha querida mochila azul. Isso sem contar meu tênis que, agora publicamente, está com o solado descolado da ponta do dedo ao calcanhar. Mas não, nem as percas irrecuperáveis infiltraram no meu humor. Estava tudo certo, a chuva lava a alma em tempos de poeira e queimada de cana.
Debaixo das cobertas e a ouvir a agradável  sinfonia das goteiras na varanda eu pude parar para fazer uma coisa inédita: pensar na vida. Uma vez que dormir tem sido uma tarefa árdua e custosa. Então organizei os pensamentos, dei uma geral nas prioridades da minha vida, repassei os últimos acontecimentos. Tentei também catalogar os sentimentos, mas estes são tão confusos que resolvi deixar espalhados mesmo.
Cheguei à conclusão de que pensar na vida e o tipo de coisa de precisamos fazer sempre.
Ao final da noite sobrou o som da água dançando pela calha da varanda, sobrou o desejo implacável de ser criança na manha seguinte, só pra correr pulando nas poças de lama que vão se formar no quintal. No final da noite o livro do Woody Allen escorregou da cama, eu adormecia.

Ele me deixou. Ele que não era nada além de uma lembrança boa. De uma escada e de beijos. De mãos e de abraços. Ele me deixou aqui.

Ele que não passava de uma conversinha sacana por msn, que nunca passou de uma foto impublicável ou de uma frase suja. Se foi sem deixar rastros, só marcas.

De tudo que me prometeu, jurou, planejou, nada sobrou. Lavei o rosto, aprumei o corpo, recolhi os cacarecos sentimentais que acumulei durante esses cinco meses e coloquei numa caixa de sapato velha. Carreguei ela pelo quinta afora com os olhos marejados de lágrimas (de raiva). Parei, frente ao girassol que plantei para ele dois dias antes e cavei um buraco com as mãos.

Enterrei, uma caixa vazia cheia de sentimento, enterrei esperança e arrependimento, enterrei a culpa. E o girassol.. matei.

Entre a estante, Gabriel Marques e a tagarela

Lá estava eu sentada na cama, tentando (esforçadamente) ler “O livro dos Sonhos” do Kerouac. Eu entrevistei naquela manhã o Moptop e descobri que o autor era o favorito do Gabriel. Então, mais tarde, na Saraiva eu procurava qualquer coisa nova para ler e espairecer. Foi quando me deparei com aquela prateleira pequenina que fica no meio da loja cheia de pocket books, e eu adoro eles porque são baratinhos. Bem na minha frente, na altura do nariz, O Livro dos Sonhos apareceu. Levei para casa.

Uma semana antes eu comprei uma estante antiga e muito bem conservada. Nela, enfileirei em ordem alfabética meus livros que durante muito tempo ficaram em caixas ou espalhados pelo quarto. Eu amei aquela sensação, olhar eles , todos os que já li (e alguns que ainda não li). Tirei da sacola o Keuroac e comecei a ler.

Foi quando a tagarela entrou no quarto. A tagarela é minha irmã Vitória que tem aborrecedores 13 anos de idade. E ela falava, falava, falava do menino que tava paquerando, que é bonitinho, fofinho, que pegou na mão dela (ou na bunda dela, não sei ao certo), que iam ao cinema, blá blá blá.

Eu tentei explicar, que estava aturdida, que passei o dia vendo os olhos estupidamente azuis do Gabriel Marques na minha frente, que estava cansada e queria ler o maldito livro. Mas não, ela continuou tagarelando na minha orelha.

Quase enlouqueci. Minha mente ia e vinha do livro, dava voltas nos acontecimentos daquele dia, passeava por sorrisos, por músicas, por pessoas. Me perdia, me encontrava, nada ouvia, tudo escutava. Foi quando levantei a bunda da cama, deixei o Kerouac no travesseiro, virei as costas para a irmã-falante, passei pela estante e entrei no banheiro. Mas ainda me perseguiam aqueles olhos azuis, e destes eu não consegui fugir, ainda não.

Passos e pensamentos.

Elvis Preley Navarro

Na volta amargurada para casa, depois da faculdade, andei aquela uma hora rotineira no frio que faz sempre às 23 horas e pude pensar numa dezena de coisas. Dentre as quais, avaliei que perdi uma amizade recentemente, pensei no novo integrante da família, gatinho Elvis, pensei sobre minha solidão tão bem administrada, pensei nas escolhas que fiz e no meu estresse tão preponderante nos últimos dias.

Sobre a amizade, me faz falta. Costumávamos ser intimas, mas a posição de intimidade foi ocupada por um louro alto e provavelmente mais maduro e divertido que eu. Também costumávamos sair junto, mas agora ela tem novas amizades bem mais bonitas e legais. Pelo que percebi era um peso, talvez continue sendo, afastou-se e afasta-se cada dia um pouco mais, já me vejo como um estorvo.

Sobre o novo morador, nasceu anteontem. Minha gata é negra, mas o pequerrucho veio ao mundo numa brancura só. Dei o nome de meu maior ídolo, aquele que embala há tanto tempo meus dias e que logo estará estampado em minha pele. Elvis Presley Navarro é meu maior mimo nesses dias.

Sobre a solidão, meu deus, como é bom. Talvez as vezes sinta falta de um abraço mais apertado ou de umas mãos que passam maliciosas sobre minha pele, mas isso, isso eu remedio numa saidinha noite a fora.

Sobre as escolhas. Nunca pensei que pudesse amar tanto o quê tenho feito.

Sobre o estresse, nunca me senti tão tensa e nervosa. Com tudo e todos. Sabe, ninguém parece notar que o sentido de trabalho em equipe é não sobrecarregar uma única pessoa. To de saco cheio, só continuo por que vejo no sorriso das pessoas que viram meu trabalho o sinal de que estou fazendo algo bom de verdade.

Quando entrei na rua, tomada pela escuridão e a falta de um dos postes que queimara duas semanas atrás, um grupo de crianças voltava de uma reunião na igreja Assembléia de Deus. A líder deles devia ter uns 16 anos no máximo e prometia singelos prêmios àqueles que continuassem firmes. Eu só pude rir por que meus pés doíam tanto que nem vontade de chorar deu.

 

 

 

 

 

 

 

A maldita ponte.

Estava na ponte, estava vendo as pessoas passarem debaixo dela e imaginando suas vidas à medida que seus rostos denunciavam seus espíritos. Eu fiquei lá por muito tempo e então escureceu, mas o fluxo de pessoas era sempre contínuo, eram como ondas, era um mar de gente que eu não conhecia.

No meio deste mar, encontrei um olhar misterioso, que por sua vez se encontrou com meu olhar curioso. Tomei um susto quando ele sorriu pra mim como quem diz “sei que está me olhando garotinha atrevida”. Gelei, transpirei frio quando ele me engoliu com os olhos e me desnudou com seu sorriso malicioso. O homem subiu a ponte, passou por mim sorrindo e eu sustentei meu olhar enquanto pude. Foi quando meus olhos desceram ao chão e encontraram meus pés, foi quando as mãos do estranho me pegaram pela cintura, foi quando sua lingua encontrou minha boca, foi quando eu amei pela primeira vez.

Ele ainda não é meu, não pode ser. Ele não vive por perto mas ainda posso sentir sua respiração e o bater de seu coração. Posso sentir seu cheiro, posso lembrar todas as palavras que me disse aquela noite. Por que aquela maldita noite, aquela que tirei para ficar só a observar me rendeu a tortura da espera que tenho degustado diariamente. Aquela maldita noite vai condicionar o resto de minha vida. E se você quer saber, sim, eu o amo e não interessa se isso dói ou acaricia, vou amá-lo e só a ele.

Mais que Frutilly.

Quero viajar, quero e vou no próximo mês para Sampa, ficar uns dias na casa de minha querida Lípcia (eita pessoa de bom coração que eu tive a sorte de conhecer, obrigada pai Jeff ). Será muito bom andar em meio a todo aquele concreto, ver rostos tão diferentes e me sentir longe de mim mesma. Porém, minhas pernadas pela cidade cinza não é o assunto de hoje. Por que o assunto de hoje é bastante revelador, atente-se para as próximas linhas caro leitor.

Gosto de ter vislumbres futurísticos. Sempre pego meu pensamento passeando pelos mais longíquos destinos, tomando trens, metrôs, andando a pé, pegando um avião ou um busão caindo aos pedaços… nao se cansa, está sempre indo de uma praia para um teatro, de uma biblioteca até uma boate, de uma mesa de bar até um quarto de hotel nostálgico. Meu pensamento corre desta sala, afim de quebrar essa de viver em um só lugar, constituir família e ser funcionária de uma mesma empresa por décadas. Isso, minha gente, isso não pertence a mim, obrigada.

E até mesmo para constar nos autos desta vida, eu não me satisfaço com o emprego legal, o cara bacana e o dinheiro para o almoço. Não é ganância, é pura vontade de estranhamento. Estar em lugares onde nada conheço e então conhecer novas pessoas e me apaixonar por elas e pelo lugar, fazer amigos e partir e deixá-los para trás me atrai mais que aquele sorvetinho Frutilly, mais que o algodão-doce do seu Zé ou aquele amor no final do verão passado.

Muito prazer. :) Este vídeo me traz o sentimento aqui descrevido, enjoy it!

Adultinha

Levantei da cama por volta das 8 horas, tratei da Amália, coloquei ela perto do pé de jabuticaba, ela fica feliz lá . Me aprontei, coloquei um coletinho xadrez meio roxo por cima da camiseta básica branca. baguncei o cabelinho o máximo que pude. Cuidei do piercing novo. Fiz bochecho com Malvona, troço ruim da §#@$#! Peguei minhas coisas, comecei a caminhada até o trabalho.

Parei na banca ao lado do Fórum, comprei a piauí_22 (aliás, se vc não conhece essa revista, acorda malandro!). Continuei a caminhada. O senhor que varre a rua da Imobiliária Botelho ( o dono, seu Botelho, é cliente da farmácia de minha tia ) me deu aquele costumeiro e bem humorado bom dia. Sempre fico impressionada com aquele azul dos olhos dele. E continuei, mais meia hora batendo perna pelas ruas largas do bairro Ribeirânia e cheguei ao trabalho, enfim.

Adentrei a sala, com o coletinho xadrez, a piauí debaixo do braço e um “bom dia” saltitante disparando para as meninas e a chefa. Sentei em minha mesa, liguei o Colosso (chamo assim o meu computador, muito antigo coitado, estamos aguardando os novos). Olhei em volta, me olhei, e juro, juro a vocês que nunca me senti tão adulta como hoje. Vai ver eu estou ficando adultinha mesmo ;)  

Besos.

O Presente

Hoje de manhã eu ganhei um lindo presente. Já dei nome, chama-se Amália e é em homenagem a uma pessoa muito querida que eu costumava conversar na internet faz algum tempo.

Quem me deu foi o Pedro, namorado de minha mãe. E foi minha mãe quem escolheu a Amália, disse que combina comigo por causa da minha mania de pintar o cabelo de vermelho.

Ela veio para me fazer companhia, pra me deixar mais alegre, pra me ouvir.

Seja bem vinda Amália. Vou cuidar de vc.